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Legiano Enciclopédia dos Elementos Químicos

Guia · leitura de 8 minutos

Isótopos e radioatividade: o que são e para que servem

O mesmo elemento pode ter átomos de massas diferentes, e alguns deles se transformam com o tempo. Entenda os conceitos e as aplicações.

O que é um isótopo

Todos os átomos de um mesmo elemento têm o mesmo número de prótons, que define a identidade química. O número de nêutrons, porém, pode variar. Átomos com o mesmo número atômico e número de massa diferente são chamados isótopos. O carbono, com seis prótons, ocorre como carbono-12, com seis nêutrons; carbono-13, com sete; e carbono-14, com oito.

Do ponto de vista químico, isótopos do mesmo elemento se comportam de forma quase idêntica, pois a química depende dos elétrons. As diferenças de massa produzem efeitos sutis, como pequenas diferenças na velocidade de reações, que são aproveitadas em estudos geológicos e climáticos. A massa atômica de cada elemento na tabela é a média ponderada de seus isótopos naturais.

Estáveis e radioativos

O núcleo é mantido coeso pela interação nuclear forte, que atua contra a repulsão elétrica entre os prótons. Para elementos leves, a estabilidade exige uma proporção próxima de um nêutron por próton; para os pesados, mais nêutrons são necessários. Quando a proporção foge de uma faixa estreita, o núcleo é instável e se transforma espontaneamente, emitindo radiação.

Dos 118 elementos conhecidos, os 82 primeiros têm ao menos um isótopo estável, com exceção do tecnécio e do promécio. A partir do bismuto, todos os isótopos são radioativos, embora alguns, como o urânio-238, tenham meia-vida comparável à idade da Terra e, por isso, ainda existam em quantidade apreciável.

Tipos de decaimento

No decaimento alfa, o núcleo emite uma partícula formada por dois prótons e dois nêutrons, o que reduz o número atômico em duas unidades. É típico dos elementos pesados, como o rádio e o urânio. A partícula alfa é barrada por uma folha de papel, mas é muito danosa se o emissor for inalado ou ingerido.

No decaimento beta, um nêutron se converte em próton, com emissão de um elétron e de um antineutrino, ou o inverso. O número atômico muda em uma unidade, e o elemento se transforma em outro. O decaimento gama, por sua vez, é a emissão de radiação eletromagnética de alta energia por um núcleo que já foi excitado, sem mudar o elemento. A radiação gama é a mais penetrante e exige blindagem espessa, de chumbo ou concreto.

Meia-vida

A meia-vida é o tempo necessário para que metade dos núcleos de uma amostra radioativa se transforme. O decaimento é um fenômeno estatístico: não se pode prever quando um átomo específico vai decair, mas o comportamento de um grande conjunto é previsível. Após uma meia-vida resta metade da amostra; após duas, um quarto; após dez, cerca de um milésimo.

As meias-vidas variam enormemente. O iodo-131 tem cerca de oito dias, o tecnécio-99m, seis horas, o carbono-14, cerca de 5 730 anos, e o urânio-238, aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Quanto menor a meia-vida, mais intensa é a atividade por átomo, mas por menos tempo; quanto maior, mais fraca e duradoura.

Datação por carbono-14

O carbono-14 é formado continuamente na alta atmosfera, quando nêutrons de raios cósmicos colidem com átomos de nitrogênio. Ele se combina ao oxigênio e entra na cadeia alimentar pela fotossíntese. Enquanto um organismo está vivo, a proporção de carbono-14 em relação ao carbono-12 em seu corpo é praticamente igual à da atmosfera.

Com a morte, a reposição cessa e o carbono-14 decai. Medindo a proporção restante e conhecendo a meia-vida, é possível estimar a idade de ossos, madeira e tecidos de até cerca de 50 mil anos. A técnica, desenvolvida por Willard Libby no fim da década de 1940, revolucionou a arqueologia. Os resultados precisam ser calibrados, pois a concentração atmosférica de carbono-14 variou ao longo do tempo.

Energia nuclear

Na fissão nuclear, um núcleo pesado, como o do urânio-235 ou do plutônio-239, absorve um nêutron, divide-se em dois núcleos menores e libera energia e novos nêutrons, que podem provocar novas fissões em uma reação em cadeia. Nos reatores de potência, a reação é controlada e o calor produzido gera vapor para acionar turbinas elétricas.

No Brasil, as usinas de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, usam urânio enriquecido, e o país domina o ciclo do combustível nuclear. Já na fusão, núcleos leves se unem e liberam energia, processo que alimenta o Sol e que ainda é objeto de pesquisa para uso na geração elétrica. Os principais desafios da energia nuclear são a gestão dos rejeitos, a segurança das instalações e o controle de materiais que possam ter uso militar.

Medicina, indústria e pesquisa

Radioisótopos têm usos que beneficiam milhões de pessoas. Na medicina nuclear, traçadores como o tecnécio-99m e o flúor-18 permitem mapear o funcionamento de órgãos e localizar tumores em exames de cintilografia e de tomografia por emissão de pósitrons. Na radioterapia, feixes de radiação destroem células cancerosas, e o cobalto-60 foi por décadas uma fonte tradicional.

Na indústria, fontes seladas medem espessura de chapas e nível de líquidos em tanques e inspecionam soldas; detectores de fumaça residenciais usam quantidades mínimas de amerício-241. Na agricultura, a irradiação de alimentos reduz perdas, e a técnica do inseto estéril combate pragas sem inseticidas. Todo manuseio exige licença, treinamento e rigorosas normas de proteção radiológica.

Proteção radiológica

Os três princípios da proteção são tempo, distância e blindagem: quanto menos tempo de exposição, maior a distância da fonte e mais adequada a barreira, menor é a dose recebida. Na vida cotidiana, a maior parte da radiação recebida é natural, vinda do solo, dos raios cósmicos, do gás radônio que se acumula em ambientes fechados e dos alimentos.

Este guia tem caráter educativo e descreve fenômenos físicos. Fontes radioativas não devem ser manipuladas por quem não tenha autorização e treinamento, e qualquer suspeita de material radioativo abandonado deve ser comunicada de imediato à Defesa Civil ou à Comissão Nacional de Energia Nuclear.

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